quinta-feira, 23 de abril de 2015

Memórias Olfativas



A mãe tem cheiro de comida gostosa de fogão à lenha. Tem cheiro de sumo de laranja depois do suco pronto. Se tivesse avental, ele seria sujo de molho e de alho. Ela faz o melhor arroz do mundo!


A mãe, depois que ela volta do quintal, tem cheiro de capim molhado, de capim santo e de terra boa. Daquelas que tudo o que plantar nela, vinga. Tem cheiro de fruta colhida no pé e que ainda tem nódoa escorrendo por ela. 


A mãe tem cheiro de Comfort e de bruma de cachoeira no dia em que ela lava roupa. Ela tem calor de sol no dia em que passa roupa.


A mãe tem cheiro de polvidine depois que termina de fazer curativo no pé diabético do meu pai. 


A mãe tem cheiro de flor depois que ela toma banho.


A mãe tem cheiro de mãe que é só dela o tempo inteiro. Daqueles que ninguém mais tem e em nenhum outro lugar do mundo encontraremos outro igual ou parecido que não seja dentro do abraço dela. 


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Todas as Vidas - Cora Coralina





Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo... 


Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano. 


Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal. 


Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada. 


Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos. 


Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras. 


terça-feira, 14 de abril de 2015

Triste



Ayer se fue Eduardo Galeano. 


Luego por la mañana he leído que nos dejó.


Las gracias le son dadas desde todos los rincones del mundo.


Incluso la mía también se lo di.


Soy brasileña de pura cepa. No tengo raíces en ninguno país de lengua española y entretanto hablo español casi como un nativo, nivel C1(el C2 sólo para los que nacen en países del castellano – así me lo dijo la escuela).  Muchas de mis clases han sido con sus obras. E, incluso cuando no tenía clases con textos de Galeano, lo leía desde mi casa, autobús, calle, viajes, etc.


Me encantaban tanto sus textos que en 2011, de vacaciones, fui para Montevideo a conocer la tierra que debería ser la tierra más hermosa del mundo por habernos regalado tan grande escritor. 


Ayer he sentido mucho su ida. Duele saber que hay, todavía, aún muchas palabras que no han sido escritas y que ya no las conoceremos. 


El último adiós no existe.


En cuando se queda en nosotros un poco del que se fue. Un artista, un maestro nunca sabe a dónde termina su influencia en la gente. Puede que pase días, meses, años y su obra sigue dándole vida en los ajos de quienes le están leyendo. 






Ojalá así sea.