terça-feira, 25 de julho de 2017

Um Dia Menti Para Deus



Meu pai faleceu um mês e uma semana depois que deixei de escrever neste blog. Eu estava psicologicamente e fisicamente exaurida naquela época! 

Por dois anos, entre idas e vindas a médicos, faltas e/ou atrasos no trabalho, abandono de vida social – já cheguei a entrar em casa na sexta-feira depois de chegar do trabalho e colocar os pés na rua novamente só na segunda-feira para ir de novo ao trabalho, com a luta diária contra a diabetes, contra as escaras, contra o tempo, contra a lógica de querer que ele ficasse para sempre e um dia à noite, depois de ajudar minha mãe a trocar os curativos dele, aos prantos, falei com Deus: “Estamos prontos... por favor, deixe-o ir!”.

Menti para Deus neste dia. 

Imagino que Ele deu um sorriso de canto de boca e falou: “Está nada, menina! Conheço seu coração!”

E conhece mesmo. Ninguém está pronto para isso. 

Deus ainda nos deu três dias, depois ele faleceu e até hoje dói.

Era uma segunda-feira, 21 de dezembro, o primeiro dia de verão. 

Ele nasceu no dia 24 de junho, no dia de São João. Dizem que é a noite mais fria do ano. Ele era tão friorento que esperou quando o verão chegasse. 

O sol estava fortíssimo naquele dia mesmo sendo manhã. Lembro-me de usar um vestido de malha leve preto com estampa de mini flores brancas para ir ao trabalho.

Lembro que naquele dia eu não queria trabalhar. Durante todo o caminho de ida, eu o fiz quase chorando. Não sabia o por quê. Soube o motivo só uma hora depois. 

Cheguei ao trabalho às 8 horas. Haveria uma reunião do Conselho às 9 horas. Meu Superintendente pediu que eu digitalizasse um documento que seria enviado por email a uma empresa externa. Depois do email enviado, me deu uma vontade incontrolável de ligar para a minha casa. Liguei e quem atendeu foi minha irmã mais velha. Já achei aquilo bem estranho porque ela ia lá só na parte da tarde. Quando perguntei se estava tudo bem... ela me deu a notícia: Pai havia acabado de falecer! 

Foi em casa, depois de tomar banho, depois do café da manhã que minha deu a ele com a ajuda da minha tia. Ele estava sentado no sofá no quarto e meu irmão estava fazendo a barba dele. A respiração foi ficando cada vez mais fraca até que deu o último suspiro. Morreu igual a um passarinho. Sem alardes. Sem tempestades de "ais".

O resto do dia foi tudo muito confuso! Era como se eu estivesse ali e não estivesse. Em uma comparação horrível: como quando a gente vai ao dentista e anestesiam a boca da gente, sabemos que a boca está ali, mas, não a sentimos. Era assim com o corpo inteiro. 

A sensação de ausência e incompletude é uma constante desde então. Até hoje eu choro. Não são todos os dias como antes. A maioria das vezes são as lembranças alegres ou engraçadas que suprem esta ausência. Recordar para não esquecer. Tão óbvio e tão necessário.

Pai era meio bagunceiro, meio atrapalhado, mas era a pessoa que NUNCA reclamava de nada! Em todos os anos de convívio, eu não me lembro de ouvir da boca alguma reclamação. Perguntei aos meus irmãos sobre isso e a resposta deles foi a mesma.

Quando ele tinha que falar alguma coisa a alguém, não era muito jeitoso com as palavras ditas. Acredito que herdei isto dele. Prefiro a escrita que a gente pode corrigir! 

Tinha uma fé e uma religiosidade que faziam dele referência nisto. No velório várias pessoas comentaram comigo que “se ele não está nos braços de Deus agora, ninguém mais estará”.

Ele teve uma vida longa e cheia de causos! Tornou-se mestre em sabedoria na simplicidade.

Um dia, aos 91 anos, ele já doente, perguntei para ele: 

- Pai, o que é vida?

E ele me respondeu com um sorriso:

- É não ficar distraída pensando nisso. 

Homem sabido!





segunda-feira, 24 de julho de 2017

(Re)Começo

Se não agora, quando?