domingo, 17 de setembro de 2017

Rosas Que Crescem No Concreto




Dias atrás conheci uma senhora no ponto de ônibus no centro de BH.

O ponto estava cheio de gente, era por volta de 18h40. Eu estava em pé aguardando o ônibus quando um senhor chegou perto de mim, com um bafo de cachaça horrível (diga-se de passagem), e me pediu uma moeda. Neguei, claro! Ele insistiu, dizendo que precisa do dinheiro para pagar a escola da filha e blá, blá, blá. Neguei novamente! Ele não satisfeito, insistiu uma terceira vez dizendo que “é pecado mentir para Deus”. Isso dava um textão filosófico só com a ironia da situação, sem contar que me deu uma vontade imensa de começar uma discussão com ele, mas ando meio preguiçosa com as pessoas. Preferi estar calada, braços cruzados e olhar fixo nele. Ele entendeu o recado.

Ele, então, se dirigiu a esta senhora que estava perto de mim, tão perto que consegui escutar a conversa deles. 

Ele pediu a ela uma moeda também e ela disse que não tinha. Disse que com 76 anos ainda cuidava das netas. Não tinha dinheiro para nada.  Ele saiu satisfeito dizendo: “nela, eu acredito”. 

Depois que ele saiu de perto dela, eu a fiquei observando durante um tempo e não aguentei: Fui lá puxar conversar. A frase que ela disse me incomodou muito: “76 anos e ainda cuido das netas.”!

Ela era negra, muito magra, trazia duas sacolas nas mãos, uma com legumes e a outra não deu para ver o que era. Usava roupas muito simples e chinelo nos pés.

Aproximei-me assim, como quem não quer nada e perguntei:

- A Senhora cuida mesmo das suas netas?

- Sim. Sou eu que cuido das minhas netas. Na verdade, eu cuido é da família toda. Minhas duas filhas estão desempregadas, então chega na hora de comer, vai todo mundo lá para casa. Pouco ou muito, comem o que tiver. Hoje nós almoçamos canjiquinha com feijão preto. A minha vizinha ganhou isto na cesta básica lá da igreja, mas ela não gosta, então, ela me perguntou se eu queria. Pobre pode recusar comida, minha filha? 

E deu um sorriso enorme e eu sorri de volta incentivando que ela continuasse. 

- Minhas filhas não arrumam emprego para nada. Nem de faxina estão conseguindo! 

Comentei que a situação econômica no Brasil está meio difícil mesmo. Parece que ela não ouviu e continuou a conversa mudando totalmente o assunto.

- Uma delas quis arrumar um “homi” branco porque queria que os filhos fossem “bonitos”. Arranjar, ela arranjou, mas ele vale nada. Está preso, graças a Deus! Porque quando está solto, ele pega tudo o que estiver em casa e vende para comprar “pedra”. Mas, as meninas, minhas netas, não têm nada a ver com isso. E as meninas são lindas, viu minha filha! Cada cabelão de dar inveja até em você.

Perguntei se ela morava no meu bairro, já que ela estava esperando no mesmo ponto que eu. Não que passe só uma linha de ônibus no meu ponto, mas perguntei assim mesmo. Para minha surpresa, ela respondeu que não estava esperando o ônibus. Questionei então o que ela estava fazendo ali àquela hora. Ela respondeu:

- Buscando comida. Está vendo aquela loja de quitanda logo ali do outro lado? 

Assenti com a cabeça e ela continuou:

- Todos os dias quando a loja fecha, eles colocam na rua produtos que vão vencer no dia seguinte. Estou aqui esperando a loja fechar e ver o que tem hoje. Eles colocam muita coisa boa. Tem dia que colocam biscoito recheado, tem dia colocam até salame. As meninas, minhas netas, adoram! Ontem me disseram que colocaram manteiga, mas ontem eu não vim. Então hoje eu estou aqui esperando. 

Ela me mostrou a sacola de legumes e disse:

- Essa sacola de legumes eu peguei lá no sacolão. Eles fecham mais cedo. Peguei o que eles colocam no “lixo”. Mas, olha para você ver, isso aqui é lixo?

Não. Não era. Era a comida que ela iria levar para casa. 

- A vida é assim, né, minha filha?! Sempre caminhando, sempre se arranjando como pode, mas sem prejudicar ninguém. Um dia você anda mais, outro dia menos. Mas, o que tem que fazer mesmo é viver. Senão a vida passa e quando vai ver, você não fez nada. Isso deve ser triste!

Eu, que sou boa com palavras, não consigo descrever o que senti à medida que ela ia falando. Lembrei que no último feriado fiz compra e os armários da minha casa estavam cheios; pensei na minha vida hoje; na vida da minha mãe – que tem exatamente a mesma idade dela -;  pensei na vida que minha família tem e repassei mentalmente tudo o que ela havia dito. Quase chorei. Não conseguia controlar meus pensamentos. Acho que fiquei em “choque” durante um tempo porque ela me perguntou:

- A moça está bem?

Balancei a cabeça afirmativamente, cheguei bem perto dela e cochichei no ouvido perguntando se ela aceitava uma “ajuda”(em dinheiro). Ela disse:

- Minha filha do céu! Claro que aceito! Se não vai te fazer falta, claro! Porque pedir, eu não peço. Eu sempre me lembro de minha mãe falando para a gente lá roça, perto de Timóteo que, com pouco ou com muito, a gente tem que viver com o que tem. Não tem que ter inveja do que os outros têm, não. 

Peguei todo dinheiro que estava na minha carteira e entreguei para ela. Ela pegou até sem ver quanto era, me agradeceu, abençoou minha vida e a de minha família e imediatamente ela guardou o dinheiro e escondeu a bolsinha dentro do sutiã, perto da axila. Eu quis rir, mas ainda estava com a história dela na cabeça. Melhor não.

Meu ônibus veio, queria ficar mais um pouco, mas o cansaço venceu e fui embora. 





Não sei, sequer, o nome dela. Mas, estou escrevendo isto para que vocês também a conheçam e para que eu nunca mais esqueça.



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